A Caça (Jagten – 2012)

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ACacaAlguns filmes passam despercebido aqui em Curitiba, principalmente quando o filme não é dos EUA, ficando restritos a poucas salas e com um período pequeno de exibição, em alguns casos o filme nem chega por aqui. Realmente não recordo de ter visto alguma sala dar uma chance para o surpreendente dinamarquês A Caça que é um dos candidatos a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2014.

Jagten é um daqueles filmes que poderiam simplesmente ir para o lado mais comum dos filmes que tratam do mesmo assunto, usar cenas apelativas ou ainda deixar a quem está do outro lado da tela sempre em dúvida sobre os fatos, mas por uma daquelas coisas incríveis do cinema, o diretor Thomas Vinterberg optou por jogar limpo com a gente, não temos duvidas do que vemos, não somos enganados e nem por isso o filme não choca, não provoca e não marca.

A grande premissa do filme é aquela de que crianças são inocentes e normalmente não possuem noções claras de onde suas ações podem chegar, pois crianças ainda não possuem em seus corações a maldade dos humanos. Realmente crianças são inocentes e nem sempre possuem noção dos seus atos, mas e nós, o que nós devemos fazer nesses momentos? É isso que o filme mostra, detona e explode na tela.

Pois é num ato assim, sem maldade, mas de tristeza e talvez de desilusão amorosa, se é que podemos chamar aquilo de amor, que a pequena Klara (Annika Wedderkopp) vira a vida do seu professor e amigo Lucas (Mads Mikkelsen) de cabeça para baixo, pois com uma simples palavra, um simples gesto de Klara, o mundo muda completamente para Lucas.

É neste momento que o filme se torna um estudo espetacular sobre o ser humano, sobre a sua forma de agir perante fatos que em nenhum momento são provados, e que vivem na suposição e na crença de que o homem sempre é o culpado perante uma criança, não interessa o quanto você conhece aquela pessoa, o quanto você já confiou naquela pessoa, o ódio, o nojo, a raiva falam mais alto.

É impressionante como o ser humano pode ser cruel e cego, por mais que Klara tente demonstrar que errou, todos os adultos, cegos, passam a defendê-la e manipula-la para aquilo que eles adultos acreditam ser o certo e o decente. Em nenhum momento eles se questionam, se arrependem do que estão prestes a cometer perante a uma pessoa da pequena sociedade deles.

É bom ressaltar que toda essa dor, angustia e sofrimento que vemos Lucas passar só chega a nos afetar, e afeta, por causa de um trabalho primoroso do ator Mads Mikkelsen, um cara simples, pacato e talvez acomodado em um trabalho sem ambição (por isso o início lento do filme acompanha sua vida pacata), uma pessoa que cá entre nós seria um excelente parceiro de pescaria e cervejas. Todo o filme funciona por causa dele, um trabalho forte e imponente que faz o roteiro, simples, um grande filme. Sem Mads Mikkelsen no papel de Lucas talvez Thomas Vinterberg tivesse que apelar para cenas apelativas e brincar com a nossa inteligência.

O filme é impressionante, pois é simples e não quer te surpreender ou dar reviravoltas, apenas toca de uma forma precisa na ferida, em um problema cada vez mais crescente no mundo, mostra como acusações ou erros de julgamento podem transformar a vida de uma pessoa, que mesmo que prove em certo momento que todos estavam errados, viverá para sempre com aquela marca do passado.

Jagten é uma daquelas agradáveis surpresas de um cinema que pouco tem espaço por aqui.

Até,
André C.

A Caça (Jagten – 2012)
Sinopse: Lucas (Mads Mikkelsen) trabalha em uma creche. Boa praça e amigo de todos, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda do filho. Tudo corre bem até que, um dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), de apenas cinco anos, diz à diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Klara na verdade não tem noção do que está dizendo, apenas quer se vingar por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por Lucas. A acusação logo faz com que ele seja afastado do trabalho e, mesmo sem que haja algum tipo de comprovação, seja perseguido pelos habitantes da cidade em que vive.
Direção: Thomas Vinterberg
Roteiro: Tobias Lindholm e Thomas Vinterberg
País: Dinamarca e Suécia
Duração: 115 mimutos
Prêmios: Oscar 2014 – Indicado Melhor Filme Estrangeiro, Globo de Ouro 2014 – Indicado Melhor Filme Estrangeiro, BAFTA – Indicado Melhor Filme De Lingua Estrangeira e Cannes 2012 – Melhor Ator (Mads Mikkelsen) e Indicado à Pala De Ouro
Elenco: Mads Mikkelsen (Lucas), Thomas Bo Larsen (Theo), Annika Wedderkopp (Klara), Lasse Fogelstrøm (Marcus), Susse Wold (Grethe), Anne Louise Hassing (Agnes), Lars Ranthe (Bruun), Alexandra Rapaport (Nadja) e Sebastian Bull Sarning (Torsten).

Nota Filme 4.5

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